Kaleydos

10 tendências que mostram que negócios e finanças de impacto vieram para ficar

Do ICE

“Esse movimento está desencadeando uma nova revolução, construída não só em fantasias e desejos, como em 1988 e 1998 [revolução dos computadores e internet, respectivamente], mas firmada em realidade. É uma ideia simples, e ideias simples se tornam grandes movimentos.”

Quem aponta essa direção é Amit Bathia, diretor-executivo do Global Steering Group for Impact Investment, que participou do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto.

O crescimento do campo, que movimenta US$ 114 bilhões no mundo, deve dobrar até 2020, também segundo Bathia. Omovimento de ampliação pode ser notado aqui no Brasil, se fizermos uma análise entre as três últimas edições do Fórum, realizadas nos anos de 2014, 2016 e 2018.

Na primeira edição, 500 pessoas participaram das atividades, com 25 palestrantes internacionais e 60 brasileiros. Nesta terceira edição, em 2018, o público presente foi de mais de mil pessoas, com seis palestrantes internacionais e 170 brasileiros. “Vemos muito mais tipos de atores no ecossistema. Isso é uma vitória para quem acredita que é possível produzir capital com propósito”, afirma Célia Cruz, diretora-executiva do ICE.

Ela destaca a presença de empresas, governo, academia, intermediários, contribuindo para a ampliação dos ecossistemas participantes do campo, e como essa pluralidade é importante para o crescimento: “Finalmente conseguimos provar que os ‘hippies de São Francisco’ não são uma moda passageira”.

 Reunimos aqui dez tendências, captadas durante o Fórum, que mostram que finanças sociais e negócios de impacto vieram para ficar.

1. Diversificação e ampliação do ecossistema

Em 2014, ano em que foi realizado pela primeira vez no Brasil o Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto, havia poucos dados disponíveis sobre o campo no país e pouca gente atuando em torno do tema. Além do ecossistema ter aumentado desde então, outros ecossistemas se uniram ao campo. Hoje já são cerca de 60 incubadoras e a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), novos fundos, mais de 70 professores e 44 universidades trabalhando com pesquisa e novos talentos. Meio ambiente, empresas, governo, academia e a base da pirâmide se encontram hoje nesse campo, contribuindo para sua ampliação e enriquecimento pela via da diversidade e da atuação conjunta, tendo no horizonte o fomento desses negócios de impacto social. No Brasil, o campo está mesmo se ampliando em ritmo crescente.

2. Empresas buscam equilíbrio entre o capital e o impacto

Cada vez mais as empresas estão falando sobre os impactos que geram. E cada vez menos parece opcional olhar ou não para o impacto. “Estamos no momento exato de discutir sobre isso. Trabalho com grandes empresas e, desde o início do ano, estamos realizando uma pesquisa, a convite dos organizadores do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto, buscando entender como as empresas têm tratado esse tema”, diz Vivian Muniz, da PwC. Ela cita a carta divulgada pelo CEO da BlackRock, Larry Fink, no início desse ano, informando aos empresários das maiores corporações do mundo que precisam contribuir para a sociedade se quiserem receber o apoio da empresa. Fink é um dos investidores mais influentes do mundo, e sua empresa administra mais de U$ 6 trilhões em investimentos, o que o torna um dos maiores investidores do mundo. “A sociedade está exigindo que as empresas, tanto públicas como privadas, tenham um propósito social”, escreveu ele. Isso mostra que os investidores não estão mais olhando apenas o resultado financeiro. Negócios que não têm impacto social podem não encontrar investimento no futuro. Para saber mais sobre essa relação, acesse aqui o guia“Oportunidades para grandes empresas: repensando a forma de fazer negócio e resolver problemas sociais – manual para líderes de grandes empresas atuarem com Negócios de Impacto. ”

3. Relação entre impacto e ODS

Outra grande tendência notada é a ligação entre impacto e os chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Com capacidade de implementar, se adaptar rapidamente e inovar, os negócios de impacto social estão bem posicionados para encontrar novas soluções para alcançar os ODS em 2030, agenda universal que, dentre muitos desafios, busca erradicar a pobreza extrema e a fome no mundo. Desde 2014, o SEBRAE inseriu em sua agenda estratégica a temática dos negócios de impacto social e ambiental como eixo estratégico de atendimento aos pequenos negócios, empenhado em contribuir na geração de negócios com propósito e lucro, estimulando a base da pirâmide a ser sócia, parceira ou mesmo fornecedora de produtos e serviços para os negócios de impacto. Em parceria com o PNUD, o SEBRAE está implementando o Projeto INCLUIR – Fortalecimento dos Negócios Inclusivos e Sociais no Brasil, que reúne ações para apoiar os pequenos negócios no aumento da competitividade e na integração destes nas cadeias globais de valor. Clique aqui para ter mais informações sobre o INCLUIR.   

4. Participação de institutos e fundações nessa agenda

O FIIMP – Fundações e Institutos de Impacto – reúne 22 fundações e institutos familiares, empresariais e independentes que realizam, em conjunto, ações e investimentos para o aprendizado nessa agenda. O investimento de impacto pode ser entendido como uma maneira de institutos e fundações de todos os tamanhos ajudarem organizações com ou sem fins lucrativos a obter o capital necessário para inovar, crescer e escalar soluções. A atuação de fundações e institutos vem fortalecer o campo com o olhar de apoio aos intermediários. Para conhecer a experiência do FIIMP, acesse o guia “FIIMP: nossa jornada de aprendizado em Finanças Sociais e Negócios de Impacto – para institutos e fundações que desejam apoiar e investir nesse novo ecossistema” e a publicação “Olhares sobre a atuação do investimento social privado no campo de negócios de impacto”.

5. Investimento em formação de talentos e envolvimento da academia

A formação de talentos no Brasil para o campo é também uma tendência que reflete mudança. Escolas de administração e economia já inserem disciplinas sobre negócios de impacto em suas grades e há pesquisas em desenvolvimento. A Rede do Programa Academia, do ICE, iniciado em 2013, hoje já conta com mais de 70 professores de diferentes regiões do país, que atuam com temas de negócios de impacto e finanças sociais, seja no campo da pesquisa, docência e/ou extensão em instituições de ensino superior. A preparação e formação de jovens talentos para o campo, com uma mentalidade de negócios com propósito, vêm também se firmando com força nos últimos anos. Para saber mais, acesse o blog da Rede de Professores do Programa Academia.

6. Governo vê agenda de negócios de impacto como oportunidade de desenvolvimento e inovação

Depois de criar a Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO), no final de 2017, o Brasil vai ser reconhecido como White Paper da OCDE [parte do plano de ação para reforma da governança corporativa na América Latina], escolhido como modelo de como estruturar esse tipo de política. A ENIMPACTO foi estruturada para se desenvolver ao longo de uma década, como iniciativa de Estado e não de um só governo. A próxima fase do trabalho inclui desenhar os instrumentos para serem usados como política pública. Acompanhe o andamento da Estratégia na página do MDIC.

7. O meio ambiente entra no campo integrando comunidades às soluções

Quando falamos em impacto, um dos setores que melhor entende do termo é o de meio ambiente. Há muito tempo trabalhando com impacto – infelizmente, em grande parte dos casos, negativo -, esse campo está estreitando relações com finanças sociais e negócios de impacto no sentido de integrar o social e o ambiental. Um dos exemplos apresentados durante o Fórum Social de Finanças Sociais e Negócios de Impacto foi a Associação Rede Sementes do Xingu, que há dez anos envolve coletores indígenas, ribeirinhos, agricultores familiares e urbanos, técnicos e parceiros para recuperar áreas degradadas na Bacia do Xingu, Araguaia e outras regiões do Cerrado e Amazônia. Nesse período, foram utilizadas 175 toneladas de sementes nativas coletadas e beneficiadas por 450 coletores, gerando uma renda de R$ 2,5 milhões para as comunidades. “Podemos ter negócios transversais, nas áreas de habitação, mudança climática, economia de recursos hídricos, energia solar, e até polinização”, avalia Miguel Milano, da Permian Brasil Serviços Ambientais.

8. Avanço e busca de atuação conjunta com empreendedores da base

A reflexão sobre periferia, raça e gênero nesse campo mobilizou uma das trilhas do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto e revelou alguns pontos. “Precisamos de negócios de impacto que olham para a base da pirâmide, no sentido de como a gente desconcentra narrativas, recursos, como aproxima realidades, diz Adriana Barbosa, do Instituto Feira Preta. O presidente-fundador d’A Banca e um dos idealizadores da Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia, DJ Bola, avalia: “acreditamos que nas diversas periferias do país há empreendedoras e empreendedores com ideias e soluções com grande potencial de impacto socioambiental. Com o suporte adequado, podem escalar e impactar positivamente milhares de pessoas. 

9. Novos instrumentos e fontes de recursos para ampliar investimentos

Três fundos de investimento em negócios de impacto estavam ativos no país em 2014 – Vox, Mov Investimentos e Kaeté. Em 2018, esses continuam sendo os fundos disponíveis, mas novos instrumentos já despontam em finanças de impacto, como equity, crowdfunding, securitização e debênture de impacto. Além disso, um grupo mais diverso começa a fazer investimentos em diferentes fases de negócios: investidores Anjos, empresas, family offices, associações e fundações. Mesmo que o volume ainda não seja o ideal, a diversidade de investidores emecanismos é importante para atender aos mais diversos tipos de empreendimentos, desde aqueles que escalam até os que não têm dentre seus objetivos mais relevantes ser escalável. Um fundo de impacto, por exemplo, não vai investir nas soluções que não escalam. Mas há outras possibilidades. Vários tipos de investidores, incluindo aqueles que trabalham com aportes menores, são também opção. Um estudo da ANDE, de 2015, estimou que estariam em circulação no campo cerca de U$ 185 milhões, isso sem contar o microcrédito.

10. Inovação é um conceito cada vez mais amplo

Um problema na comunidade pode ser insight para a proposição de uma solução com potencial para se transformar em negócio de impacto. E essa solução não precisa envolver, necessariamente, tecnologia de última geração. Alguns casos apresentados no Fórum de Finanças Sociais deixam isso bem claro. Como o Saladorama – que surgiu a partir da inquietação de uma pessoa que começou a se incomodar com a diferença no acesso à alimentação em sua comunidade e fora dela -; ou o jaUbra – o fato de que taxistas de aplicativo não iam até a comunidade com medo por não conhecê-la, motivou à criação de um aplicativo para os moradores, acionando motoristas da região para a realização de corridas. Mas pode também envolver chatbots (robôs que conversam com as pessoas via chat) para a saúde, com foco na atenção primária, caso do aplicativo TNH – robôs com inteligência artificial que enviam mensagens de texto para ajudar organizações de saúde a engajar e monitorar populações em larga escala. Seja dos mais simples aos mais complexos negócios de impacto, inovação nem sempre tem a ver com ser disruptivo em termos de tecnologia. “Quando falamos de tecnologia, falamos de seres humanos usando a tecnologia. E quando falamos de impacto social é ainda mais importante olhar para resolver a dor das pessoas, o problema real. Antes da empresa ser data-driven, ela tem que ser people-driven, para que suas soluções façam sentido”, aponta Carolina de Andrade, do Social Good Brasil.

Redação Kaleydos

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