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Blended Finance: mecanismo amplia a captação de recursos financeiros para negócios de impacto

Estratégias de blended finance unem recursos filantrópicos, públicos e de fomento a investimentos financeiros

O ecossistema de impacto tem se fortalecido no Brasil e a oferta de capital a esse tipo de empreendimento está aumentando. Contudo, acessar investimento e recursos financeiros permanece sendo uma dificuldade de startups de impacto em estágio inicial, como revelou o 2o Mapa de Negócios de Impacto, lançado pela Pipe Social esse ano. Uma alternativa para aumentar o volume de capital a projetos e empreendimentos que gerem impacto social positivo são as estratégias de blended finance, que alia o chamado concessional capital (recursos que podem vir da filantropia, do governo, de agências multilaterais e de agências de fomento) ao capital de investidores tradicionais.

O tema é relativamente novo no mundo (o conceito surgiu há cerca de 10 anos) e ainda mais recente e pouco conhecido no Brasil. Uma organização que tem trabalhado o conceito no país é a Din4mo, que inaugurou uma unidade dedicada a esse tipo de mecanismo financeiro em fevereiro de 2018 e realizou ontem, 18/09, o 1o Seminário sobre Blended Finance do Brasil.

Kaleydos conversou com Marco Gorini, co-fundador da Din4mo, que nos explicou o que é blended finance e qual é a sua relevância para o ecossistema de impacto.

Blended Finance: entenda o que é

Na definição de Gorini, blended finance “é a utilização de concessional capital para alavancar capital mainstream de forma a você viabilizar projetos, negócios e empreendimentos de impacto social e ambiental”. Não entendeu? Calma, a gente explica e damos um exemplo prático!

Há casos em que instituições filantrópicas (ou governos, agências de fomento etc.) se interessam em apoiar determinados negócios de impacto socioambiental, mas não têm capital suficiente para isso. Por outro lado, há investidores tradicionais (“mainstream”) que também se interessam por esse tipo de empreendimento, dispõem de capital para investir, mas receiam o risco envolvido e almejam o retorno financeiro que já alcançam em outros investimentos.

As estratégias de blended finance aliam o concessional capital ao capital mainstream. Isso é feito atraindo-se primeiramente o capital vindo de instituições filantrópicas ou de fomento, que vai dar sustentabilidade financeira ao negócio apoiado e, assim, reduzir o risco do investimento. Essa redução do risco então é capaz de atrair investidores tradicionais, que aumentam o fluxo de recursos para o empreendimento. O resultado é que, com mais capital, aumenta-se o impacto social positivo que o negócio é capaz de gerar.

A vantagem para instituições filantrópicas ou de fomento é poder direcionar recursos a projetos que elas sozinhas não seriam capazes de sustentar. Além disso, o capital é doado para um fundo, financia o projeto e depois volta para o doador, podendo então ser aplicado a novos projetos e gerar ainda mais impacto. Para o investidor mainstream que se interessa em impacto, a vantagem é ter o risco reduzido e ele pode almejar lucros similares a investimentos tradicionais. Enquanto isso, o empreendedor consegue levantar mais capital para as operações do seu negócio. Por fim, ganha a sociedade com o impacto gerado por toda essa operação.

Ainda segundo Marco Gorini, o concessional capital não precisa vir exclusivamente de institutos e fundações. Ele também pode ser oriundo de recursos públicos, agências e bancos de fomento. Pode participar “todo ator que tem um olhar desenvolvimentista, que quer alavancar impacto social, ambiental e econômico, olhando para esse triple bottom line, e que para isso têm restrição de recursos, mas que com esses eles consegue atrair novos capitais em uma engenharia financeira mais inteligente.”

Case: É lançada a primeira primeira debênture social do Brasil para apoiar o Programa Vivenda

Em agosto de 2018, o Programa Vivenda – negócio de impacto que financia e executa reformas de residências a famílias de baixa renda em São Paulo – gera a primeira debênture social do país. A operação foi estruturada pela Din4mo e é um caso de sucesso expressivo.

As reformas do Programa Vivenda custam, em média, R$ 5.000. Portanto, com R$ 2 milhões é possível financiar 400 reformas. Esse foi o valor que a Din4mo levantou do capital filantrópico. Esse primeiro aporte atraiu o capital mainstream e um conjunto de investidores aportou mais R$ 3 milhões, chegando-se ao total de R$ 5 milhões. Com esse capital já seria possível financiar 1000 reformas, mais do que o dobro possível apenas com doações filantrópicas.

Mas não acaba aí. Como foi emitida uma debênture (com prazo de 10 anos de carência), o investidor só começa a receber o dinheiro de volta no sexto ano. Isso permite que, nos primeiros cinco anos, as parcelas pagas pelas famílias beneficiadas pelo programa financiem as reformas de outras famílias. No mundo financeiro, essa estratégia é chamada, de “revolvência“.

“Só por essa estratégia de revolvência, aliada à estratégia de blended finance, a gente conseguiu estruturar uma forma que, em cinco anos, o Programa Vivenda consegue fazer 8 mil reformas com o mesmo dinheiro, com os mesmos R$ 2 milhões. Ou seja, de 400 [famílias] para 8 mil [famílias] com o mesmo real, entendeu?”, explica Gorini.

Blended Finance no mundo: estratégia nova, que veio para ficar

Como já mencionado anteriormente, esse é um tema novo no mundo todo e o conceito começou a ser trabalhado cerca de 10 anos atrás. Ao todo, estima-se que operações blended já tenham movimentado entre 130 e 150 bilhões de dólares no mundo todo, especialmente na África e na Ásia.

Gorini acredita que operações desse tipo vieram para ficar. “Creio que é um caminho que não tem retorno porque alguns efeitos globais que estão acontecendo vão certamente acelerar essa perspectiva. Por exemplo, a gente tem os próprios ODS [Objetivos do Desenvolvimento Sustentável] aí na nossa cara. A gente tem um gap de aproximadamente 120 trilhões de dólares até 2030 para viabilizar os 17 ODSs e, se nada for feito, vamos só pagar o preço pela dor. Se nada for feito, os problemas vão piorar”, diz.

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