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Soluções inovadoras minimizam problemas de moradia da população de baixa renda

Por Maure Pessanha *. Publicado originalmente no blog da Artemisia.

Neste exato minuto, um terço da população mundial está morando em favelas e assentamentos informais, em áreas urbanas. De 2000 para 2012, o número de moradores nessa situação saltou, no mundo, de 760 milhões para 863 milhões, segundo o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat).

As projeções mostram que o cenário deve se agravar e, em 2050, teremos 3 bilhões de pessoas vivendo em habitações precárias. Embora as políticas públicas habitacionais priorizem a construção de novas unidades, o problema da insalubridade das moradias existentes é duas vezes maior — e mais urgente.

No Brasil, 40% dos domicílios brasileiros são considerados inadequados(sem acesso a água, rede de esgoto ou coleta adequada de lixo) e merecem atenção. É preciso olhar para esse contingente de pessoas vivendo em condições inadequadas; situação que atinge milhares de famílias em questões como autoestima, segurança, absenteísmo e frequência escolar, por exemplo.

Transformar uma casa insalubre ou irregular em um ambiente seguro, confortável e saudável representa uma faísca de transformação, que impacta positivamente pessoas, famílias e o bairro como um todo. No Brasil, empreendedores e empreendedoras de impacto social têm desenvolvido soluções inovadoras e viáveis, relacionadas diretamente às dores de moradia que afligem a população de baixa renda.

Uma dessas iniciativas é a Digna Engenharia, fundada em Campo Grande (MS), pelos engenheiros civis Evelin Mello e Alex da Silva Oliveira. O negócio de impacto social faz reformas em habitações localizadas em regiões periféricas da cidade. Com a atuação, reduz condições de insalubridade, promove saúde e amplia o acesso da população de menor renda a reformas profissionais.

Segundo a empreendedora, a motivação veio da própria experiência. Por ser moradora de periferia e estudar a adoção de técnicas alternativas para a restauração de habitações de pessoas em situação de risco social, Evelin desenvolveu uma solução de reforma estrutural, cujo orçamento do serviço é flexibilizado de acordo com a realidade do cliente. Em seis meses de atuação, a Digna já contabiliza 10 contratos firmados e já possui fila de espera.

“Transformar uma casa insalubre em um ambiente seguro e saudável representa uma faísca de transformação, que impacta pessoas, famílias e o bairro como um todo”

Em Porto Alegre (RS), a startup Diosa endereça dois desafios: empregabilidade feminina e a transformação de moradias insalubres. Fundada há dois anos por Maíra Peres e Larissa Blessmann, a empresa é um marketplace online que conduz a intermediação de serviços de reformas residenciais e consertos feitos por mulheres. Na prática, amplia as possibilidades de aumento de renda feminina, promove possibilidades de desenvolvimento para prestadoras de serviços, além de trazer mais opções para contratação desse tipo de serviço.

Maíra conta que a motivação para desenvolver o negócio de impacto social veio de uma experiência ruim ao contratar um profissional homem. As mulheres conhecem de perto o desafio e o risco de receber um desconhecido dentro de casa. No Brasil, 94% delas já sofreram assédio verbal e 77%, assédio sexual. Com a Diosa, as mulheres podem acessar uma série de profissionais para manutenções gerais em suas residências e se sentirem seguras. Além disso, o impacto social da empregabilidade é incrível. Na construção civil há 250 mil mulheres, sendo 70 mil autônomas. Desde o início, o negócio já atendeu mais de 440 solicitações.

Por último, destaco uma empresa fundada em São Paulo por Fernando Teles. A Ecolar atua com a construção de casas ecológicas de baixo custo. Voltada à população de menor renda — que vive a indignidade de habitar residências insalubres –, a casa desenvolvida pelo negócio de impacto social usa como matéria prima material reciclado e sustentável: as tecnologias Wood Frame e Modular, pouco difundidas no Brasil. As placas usadas nas casas são feitas a partir de embalagens “longa vida” e plásticos reciclados. As casas têm 20, 30 e 40 metros quadrados e saem a um custo de R$ 14 mil, R$ 20 mil e R$ 26 mil, respectivamente.

“No país, milhões de pessoas sentem diariamente a falta de dignidade, segurança, saúde, perspectiva de futuro. Do outro lado, o problema ambiental é igualmente preocupante”

Os resultados iniciais contabilizados estão na ordem de 1 milhão de embalagens recicladas e 25 ecolares construídos. No país, milhões de pessoas sentem diariamente a falta de dignidade, segurança, saúde, perspectiva de futuro. Do outro lado, o problema ambiental é igualmente preocupante. Nesse cenário, a Ecolar criou como solução de baixo custo, que apresenta agilidade na montagem, durabilidade, segurança, além do impacto ambiental positivo.

Cabe lembrar que, como centro das principais agendas sociais globais, a moradia é um tema essencial para a erradicação da pobreza. Pelo caráter transversal — influencia a qualidade de vida, saúde, segurança, educação e condições para o desenvolvimento humano — tornou-se uma temática essencial para a conquista dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU). Os empreendedores de negócios de impacto social estão olhando para esses desafios e trazendo grandes transformações positivas.

* Maure Pessanha é coempreendedora e diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento e na disseminação de negócios de impacto social no Brasil. Texto publicado originalmente no Blog do Empreendedor do Estadão PME.

Redação Kaleydos

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