Kaleydos

Vem Somar

Do ICE

O crescimento do ecossistema de investimentos e negócios de impacto e a ampliação de setores que vêm se juntando ao campo dos negócios de impacto leva à necessidade de constante reflexão sobre como cada uma dessas áreas pode atuar. E mais, em que momentos elas se encontram.

O Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto buscou ‘estourar bolhas’, trazendo para a arena do debate e da construção, além dos empreendedores, financiadores e intermediários, as áreas de meio ambiente, governo, grandes empresas, periferia, gênero e raça. Cada uma dessas ‘bolhas’ consolidou os principais desafios e oportunidades em negócios de impacto.

Quatro conceitos importantes foram apontados como fundamentais na mobilização da trilha de periferia, gênero e raça: normatividade, protagonismo, autonomia e hegemonia. “Se há um comprometimento das instituições que fazem investimento em negócios de impacto nesse recorte, é preciso inserir como elementos de análise esses quatro vetores. Não há como sustentar nenhuma iniciativa que em tese beneficie esses segmentos sem que haja real protagonismo de pessoas vinculadas a essas identidades. E um passo atrás é preciso, para termos uma visão crítica sobre como usamos esses temos para nos referir a mulheres, negros e pessoas às quais é atribuído o rótulo de periféricos. Porque a centralidade delas é diversa da nossa. Periférico é quem não está nessa centralidade. E para elas, nós estamos na periferia,” sintetiza Giovanni Harvey, do Fundo Baobá.

Outro ponto levantado por Ítala Herta, do Vale do Dendê (holding social destinada a fomentar ecossistemas de inovação e criatividade com foco em diversidade), é que “a periferia, no âmbito dos negócios de impacto social, acaba recebendo soluções que não pediu. E isso incomoda. Porque muitas soluções já estão na periferia, apenas não foram vistas.”

Na área do governo, há que se reconhecer a importância da constituição de uma política pública, de conseguir promover apoio e fomento a negócios de impacto que advém das classes C e D. Por outro lado, há também o fortalecimento das capacidades institucionais do próprio governo, em especial em relação a compras públicas. “Como a gente entende a capacidade do governo de comprar serviços e produtos dos negócios de impacto social? Como conseguimos nos fortalecer no lugar em que estamos no momento de construir políticas públicas nesse sentido, com o olhar voltado para pequenos estados e municípios? A gente já enxerga atravessar a bolha para pensar, dentro dos modelos que nós temos, o que é possível fazer. Por exemplo, contrato de impacto social é uma das modalidades possíveis de contratar negócios que pensam em impacto para a sociedade. Como consigo fazer esses contratos para iniciativas menores?”, provoca Lara Barreto, da Vetor Brasil, situando o ponto onde se encontra o governo após a Estragia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO).

A capacidade enorme de compra do governo leva a uma grande possibilidade de escala também. Mas é preciso entender as necessidades dos dois lados – como o governo consegue mapear suas necessidades para usufruir desses produtos e, do outro lado, os negócios de impacto capazes de atender a essas necessidades. “Precisamos cruzar essas pontes construídas e transitar. Avançar mais com a definição de instrumentos que facilitem essa relação. Quais setores e áreas conseguimos unir e conectar para ter serviços que atendam à população que mais precisa, e que o governo consegue comprar? É preciso levar tudo isso para pequenos governos, mais carentes de capacidades técnicas,” avalia Lara.

Em outra ponta, grandes empresas enxergavam como ampliar a integração com os negócios de impacto. O primeiro aspecto levantado foi a necessidade de refinar a proposta de valor – que um negócio aborde retorno financeiro e socioambiental que ele quer gerar, mas também a solução que a empresa vai ter ao entrar nesse campo. “É preciso que o propósito esteja claro também. As demandas das empresas em negócios de impacto estão no propósito, nos desafios de operação, na solução”, diz Rafael Gioelli, do Instituto Votorantim.

Nas grandes empresas, aponta ele, o que move o vetor é a demanda. Do ponto de vista do negócio de impacto, tem que ser a ideia de uma solução adaptada ou desenvolvida para entrar numa empresa. “O que catalisa isso: ampliação do olhar para demandas sociais. Do lado do negócio de impacto, é preciso entender que é necessário se estruturar para atender um cliente. No caso da empresa, é preciso ter incentivo, porque não adianta o CEO ser entusiasta mas não definir um programa para isso andar dentro da empresa. É preciso sensibilizar e capacitar. Além de construir as convergências. A grande empresa é conservadora. É um transatlântico, e não se dá cavalo de pau nisso. É um processo. Mas daqui a uns dois anos, vamos ter muito mais casos de conexão entre empresas e negócios de impacto, porque o campo está amaduecendo e porque as novas gerações das empresas não querem mais o modelo de antigamente. Por isso também, trabalhar com universidades, na formação, é importante. Tudo isso é um processo.”

Para a quarta trilha dessa conversa converge a área de meio ambiente, que aponta para soluções baseadas na natureza, com a transversalidade necessária para atender aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). “Aqui temos insumos para pensar. No caso daqueles que causaram impacto e mitigaram, investir é bom, mas é pouco. Deveríamos tentar investir naqueles que neutralizam ou causam impacto positivo no final, diz Miguel Milano, da Permian Brasil.

Miguel cita como exemplo de grande oportunidade de negócio de impacto uma ‘invenção’ que é capaz de captar ar puro, retirar CO2, soltar ar limpo e colocar oxigênio e água na atmosfera: a árvore. “Aí existe um espaço enorme de investimento: temos 12 milhões de hectares a serem recuperados no Brasil. Oportunidade fantástica de negócio, com geração de empregos, resultados econômicos, sociais e ambientais. A natureza é um negócio incrível. Precisamos menos do termo socioambiental como politicamente correto e muito mais como pragmatismo, colocando o ambiental transversalmente no centro dos negócios.”

Como propocionar espaços para que os integrantes dessas quatro trilhas – meio ambiente, governo, empresas, periferia, raça e gênero – andem pelas bolhas uns dos outros? Com certeza, o cruzar dessas pontes vai revelar novas oportunidades e construções.

Vem Somar – Movimento pelos Investimentos e Negócios de Impacto chega nesta direção. Lançado durante o Fórum, é resultado de uma mobilização realizada pela Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto (antiga Força Tarefa de Finanças Sociais) e organizações do campo como Vox Capital, Impact HUB, Artemisia, Quintessa, entre outras, no sentido de simplificar a comunicação sobre o tema e, com isso, mobilizar e conectar mais atores no campo.

Aglutinando atores diversos da sociedade para inspirar, compartilhar e engajar pessoas e organizações na criação de novos modelos de negócio comprometidos com impacto socioambiental e na alocação de capital a serviço de soluções transformadoras, a proposta é reunir tudo isso em uma plataforma de comunicação para disseminar a causa nos próximos meses.

Clique aqui e assista ao vídeo lançado durante o Fórum.

Redação Kaleydos

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